sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Rodrigo e o francês

Na minha épica cruzada pela capital francesa em busca do que há de melhor no berço da gastronomia mundial, uma coisa acabou ficando pra trás: o francês. A língua, não o povo.

Pois sobre o francês, o povo e não a língua, vocês já ouviram o bastante de mim. Eles andam nas ruas com a cabeça no mundo da lua, eles não gostam muito de dar informações aos turistas, não olham para os lados antes de atravessar a rua e imagino que substituem uma refeição por café e cigarro. Este última informação eu ainda não tinha postado por aqui, mas é incrível passar, na rua, ao lado de uma brasserie e ver um mundo de gente sentada só tomando um café e fumando. Comer que é bom acho que os parisienses não gostam muito. Todos os dias eu ando por essas ruas e a cena é sempre a mesma. É irônico vir estudar cozinha no país que organizou a gastronomia e é tida como referência para vários restaurantes estrelados e ver que o povo mesmo não come direito! 

E assim como o povo, a língua tem sido meio intempestiva comigo.

Só recapitulando, e pra quem não sabe, menino Rodrigo fala algumas línguas. Português há 28 anos (contando que eu não devo ter falado nada no meu primeiro ano de vida, ou quase nada), Inglês há 19 e Espanhol há 7 anos. Fiz um curso autodidático de alemão, mas esse não conta pois eu não fui muito longe com ele e sei somente o básico do básico.

Ou seja, falar línguas não é o problema. Acontece que a língua francesa é a mais nova das 4 que eu falo (como eu disse, alemão não conta) e a última que eu estudei. Entrei a 5 anos atrás na Alliance Française de Londrina e estudei durante 9 meses com professores ótimos (Elisabeth, Caetano, Elaine) mas logo depois mudei para a Irlanda e NUNCA falei mais de duas frases em francês com ninguém. 

Entendam isso: estudei 9 meses de uma língua que nunca falei na vida e parei de usar a língua com qualquer frequência por 4 anos! 

Quando cheguei na França eu estava muito enferrujado. Muito mesmo. MESMO! E naturalmente eu fui começando a me soltar mais e compreender. Mas, como eu disse acima, ela tem sido intempestiva!

Tem dias que eu acordo e falo quase fluentemente. Consigo me expressar e tudo mais!

Agora, alguns dias são um pesadelo. Eu não consigo falar mais de duas frases sem parar pra analisar o que eu estou falando e é nessas horas que geralmente o fio da meada de uma conversa vai pro vinagre.

Um dos fatores que eu já percebi que ajuda/atrapalha nessa hora é o fato do meu dia-a-dia ser como é. Em casa, eu só falo francês. Mas chego no Cordon Bleu e a primeira pessoa pra quem dou bom dia é uma espanhola da recepção. Então, "Buenos Días!". A maioria das pessoas da minha turma não fala muito francês, então "Hey, how are you all?" é a próxima frase. Daí começam a chegar os brasileiros e começa a conversa toda em português. Dali a pouco, junta um colombiano e muda pra espanhol de novo. Chega um coreano que só fala francês, então muda pra francês! E assim vai...

Com o passar dos dias, eu reparei como isso dá um nó na cabeça e quem sofre mais é o idioma mais novo. Entender, eu entendo tudo...mas na hora de falar, aaaaah! Trava tudo!

Aí começam as barbeiragens: começa a frase em francês e, sem querer, entra uma palavra em espanhol que não devia estar ali. Ou falando espanhol e entra uma em francês. Outro dia eu mandei um "Bonne soirée, hasta luego!" pra um coreano! Não foi à tôa que ele olhou pra minha cara como se não tivesse entendido nada! Afinal, qual o sentido dessa frase???

Mas uma coisa que me anima é que com pouco tempo de prática de francês até que minha evolução na língua não está mal. Se eu comparar com os meus 19 anos de Inglês, saber me comunicar decentemente em alguns meses na língua dos comedores de caramujos é uma boa média. Eu torço para que a evolução não pare.

Mas que vários nós na cabeça ainda estão por vir, aaaah...disso eu tenho certeza.

Então, j'espere que everybody tenga gostado de this texto!

AAAAAAAAAAAH!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Pressão

Este post poderia tratar do método de cocção à pressão, já que aqui basicamente falamos de comida, certo? Errado. Ao contrário de nós, brasileiros, os europeus não têm o hábito de usar panelas de pressão em casa (e até mesmo no trabalho). Acho que eles não são muito fãs de feijão, como nós, e adoram gastar 3 horas e meia dúzia de euros cozinhando uma carne dura no forno.

Pressão é uma coisa corrente em cozinha, não somente como método de cozimento. Hoje foi um dia em que relembrei isso, pois aconteceu na minha frente.

Uma das minhas colegas de sala perdeu o rumo após uma sequência de erros. Teve que sair da sala pra tomar um ar puro, pois aquele ar da cozinha estava denso demais pra aliviar a pressão que se formou sobre ela.

Isso hoje me lembrou dos meus tempos de commis chef, ainda na Irlanda, quando eu não sabia quase nada e tinha que me virar em 10 pra fazer minha sessão, o entremets, funcionar. Não foram poucas as vezes que tudo dava errado: uma batata cozida demais, um purê que saía com a consistência errada, um gratin que passava do ponto, de corado pra queimado.

Ela, minha colega de classe, sucumbiu e saiu da sala aos prantos. Eu já quase cheguei nesse ponto várias vezes, afinal não é apenas a frustração de fazer algo errado sabendo que você pode fazer melhor que isso, mas tudo contribui nessa hora: é o chef gritando na sua orelha o quão inútil você é por ter errado; é a proximidade da hora de servir o que você está fazendo e, principalmente, o quanto um erro besta vai atrasar todo o seu fluxo de trabalho. E volume de trabalho é uma constante em cozinha.

Tem gente que diz que cozinha é só para os fortes. Eu concordo e acrescento que, depois de 4 anos como profissional das panelas, a força só vem quando o profissional é aberto ao aprendizado e tem iniciativa. Gastronomia é um exercício diário no qual você descobre coisas novas a cada momento. E acertar é muito bom, mas você só aprende de fato quando erra. 

Quando se erra, pensa-se sem tudo: esconder do chef, jogar no lixo antes que alguém veja, torcer pra ninguém ter visto o que você fez. Mas admitir o erro e recomeçar, ou consertar algo se ainda houver tempo, é a melhor forma de aprendizado. Com isso, adquire-se confiança, conhecimento sobre como proceder numa situação de pressão e o melhor de tudo: calma suficiente pra lidar com o problema. Afinal, manter a calma sob pressão é essencial nesta área.

Aprender a se organizar, pensar rápido e reagir mais rápido ainda são, talvez, 80% do trabalho do chef profissional. O talento e criatividade são importantes também, mas para chegar num nível desses, é preciso provar-se competente em todos os outros quesitos.

Foi cortando os dedos, queimando os braços e levando porradas dos meus chefs que aprendi tudo o que sei hoje e é por isso que me sinto seguro para buscar soluções em situações que fariam qualquer outra pessoa, a exemplo da minha colega de sala, sucumbir à pressão.

Muita calma nessa hora cabe direitinho aqui.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Velib


Santo Velib, que nos salva de ter perdido o último metrô ou serve como opção contra a odisséia (e consequente facada) que é pegar um taxi em Paris.

Este é um serviço que existe na maioria das grandes cidades européias. Em Dublin, ele existe como Dublin Bikes, mas na ilha verde o serviço é uma merda, pois além de caro, você não conta com tantos pontos de retirada e entrega de bikes. 

Em Paris, existe um ponto a cada 500 metros, praticamente. Eu moro ao lado da Torre Eiffel, e eu já contei mais ou menos uns 5 pontos no raio de meio quilômetro da minha casa. Ou seja, não importa para onde eu tenha que ir eu sempre dou uma olhadinha no Google Maps, faço um trajeto, pego uma bike e vou. Já voltei de balada assim, da escola e já fui dar uma voltinha pelos pontos de interesse de Paris com essas bicicletas.

De onde vem a palavra Velib? Nem idéia, mas imagino que seja uma junção entre vélo (bicicleta, em francês) e libre (livre, em francês). É um serviço pelo qual você paga um preço único (29 euros por ano) e pode pegar uma bicicleta em qualquer estação da cidade, andar gratuitamente durante meia hora e devolver em qualquer estação que tenha vagas. 

Fora que, agora que o tempo ainda está ótimo na França, vale a pena pegar uma bike e dar uma volta pela cidade, nem que seja de bobeira. 

Se tem alguma coisa que vale a pena demais em Paris são essas bikes. 

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Vida de Dona Maria

Todos conhecem o famoso Zé Ninguém, certo? José da Silva Nenhuma Pessoa (tente achar um sinônimo pra "ninguém"!), apesar de ter tentado muito, nunca chegou a lugar nenhum. E é por esse motivo que nossos pais, família e professores fazer o possível e impossível para compreendermos o quão importante é não ter seu nome atrelado ao pobre Zé. Ele é a imagem criada para designar a pessoa que não tem ou não alcança objetivos profissionais e pessoais.

Agora, ainda pensando em imagens. Para você, quem é a Dona Maria? 

Dona Maria, para mim, lembra aquela vovozinha que faz doces e bolos, que sempre fala que os netos estão magros demais e que as mães não os alimenta direito (na verdade, isso me lembra mais Dona Alice, minha avozinha...e que saudade!). Também lembra aquela mãe de 7 filhos, que lava, passa e cozinha em casa e ainda trabalha fora para cuidar da família, uma verdadeira mãe multifuncional. Ou ainda aquela senhorinha mais velha que ainda dirige, geralmente devagar e meio sem prestar atenção, e que recebe xingamentos quase que sempre referentes a largar o volante e ir lavar roupa. Enfim, vocês conhecem o protocolo de xingamentos brasileiros contra mulheres no trânsito!

Mas, não estamos aqui para discorrer sobre a vida de um personagem do nosso imaginário, mas sim o resultado desse brainstorming rápido e seu impacto na minha vida.

Acho que quando eu decidi trabalhar em cozinha, eu acho que automaticamente entrei no estilo de vida de Dona Maria. Afinal, cozinhar é uma das tarefas dessa senhora. E, por algum motivo, Dona Mamá (pros íntimos) resolveu me passar alguns de seus conhecimentos da vida.

Acreditem ou não, sou quase bom em lavagem de roupas, tanto à mão como à máquina. Roupas brancas então....nossa! Sei deixar de molho, tirar algumas manchas e deixar roupa cheirosa!

Outra habilidade totalmente fantárdiga: costurar! Tapar buracos em calças? Você ficaria impressionado(a) se visse uma calça jeans que eu remendei. Fazer barra em calça? Fiz pela primeira vez anteontem e ficou bem boa! Boa parte do que aprendi foi olhando minha mãe fazer quando eu era pequeno.

Passar roupas? Opa! Minhas roupas da Cordon Bleu estão sempre impecáveis.


E cozinhar....ah, isso eu não preciso nem dizer né? 

Mas, ao contrário de Dona Maria, eu sei dirigir, e até que bem!

Eu acho que aprendi a dar mais valor ainda a essas coisas depois de ter aprendido como fazer. Conhece aquele tipo de gente que se gaba por ter lido um livro do Dostoiévski 10 anos atrás? Então, eu sinto que ser um dos poucos homens que lava, passa, cozinha e costura tem mais relevância que ter lido um livro que pouco mudou minha vida e do qual as passagens eu nem me lembro mais.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Cabisbaixo

Calma, cocada! Não sou eu que estou assim não. Muito pelo contrário, meu mês e alguns dias em Paris até agora foram muito produtivos. Estou na metade do meu curso básico no Cordon Bleu, vendo e aprendendo várias coisas sobre gastronomia francesa; moro num lugar perto da Tour Eiffel; e logo mais começo a trabalhar como extra num hotel da rede em que eu já trabalhava em Dublin. Marravilha, como diria Claude Troisgros.

Mas cabisbaixos andam os europeus, de um modo geral. Não é a crise no bloco comum, iniciada pelos gregos e que se alastrou por Irlanda, Portugal e quase quase Espanha que faz com que os cidadãos do velho continente descansem seus queixos sobre o topo do osso esterno. O Rock in Rio ser no Rio, e não em Madrid ou Lisboa, também não é o que influencia esse comportamento europeu.

Na verdade, o motivo pra mim não interessa. O fato é que é só você sair na rua e olhar para as pessoas: sempre caminhando com o olhar voltado para o chão. Não, aqui não é como o Rio de Janeiro onde bueiros explodem ou a zona de conflito no mundo árabe, onde as pessoas pisam em ovos para não pisar em minas terrestres.

Todos os dias, quando piso na rua, percebo que se eu não estou olhando pra frente e prestando atenção nos françolas, eles não me vêem e quase trombam em mim. Mesmo com uma pesquisa de não sei onde que sugere que pessoas que andam pelas ruas olhando para frente tendem a ser mais criativas e expressivas, os europeus geralmente preferem olhar para a calçada. Olhar para os dois lados da rua antes de atravessar, então, esqueça!

Estariam eles procurando moedas? Notas de euro?

Estariam eles procurando algo novo para comer, a exemplo dos escargots?

Enfim, eu posso estar muito enganado, mas não me lembro de pessoas cabisbaixas no Brasil. Seria o constante estado de alerta em que caminhamos nas ruas de São Paulo, por exemplo, que nos deixa sempre de olho em tudo?

Cá está um registro de algo que eu reparei há muito tempo e nunca comentei com ninguém. Olhe ao seu redor quando estiver na rua e repare. E se você achou que foi inútil perder seu tempo lendo estas linhas até aqui, pense sempre que você pode usar essa informação como uma forma de iniciar uma conversa com alguém interessante. Eu garanto que falar sobre os cabisbaixos substitui com sucesso os famosos "Você vem sempre aqui" ou "Te conheço de algum lugar".

domingo, 25 de setembro de 2011

Week-end!

Os super nacionalistas e anti-americanos, também conhecidos como franceses, são um tanto quanto engraçados. Muita gente sabe que os parisienses, por exemplo, são: 1) mal humorados; 2) mal educados e 3) cheios de si.

A começar pelo próprio vocabulário. Já viu o título do post? Então, é assim mesmo que os novos gauleses se referem ao final de semana, definição que até nossos ancestrais lusitanos nos deram de presente, refutando a adoção de uma expressão estrangeira (mesmo sabendo que, sim, nossa língua portuguesa é formada por outras línguas como o latim e o grego). O mesmo acontece com o football e t-shirt. Nós, lusófonos, tivemos a perspicácia de aportuguesar o primeiro e inventar um nome para a segunda. Ponto para nós.

Mal humorados porque mesmo com o melhor verão dos últimos anos, segundo amigos que residem aqui há anos, eles ainda insistem em reclamar do céu cinza e do inverno que está próximo, mas ainda nem bateu à porta. Se bem que, ao contrário do que dizem, a maioria dos franceses está diariamente, quando o tempo permite, frequentando algum parque para tomar sol naquelas pernas que mais parecem ter saído de vidros de palmito.

E mal educados porque são, e ponto. Um exemplo que aconteceu mais de uma vez comigo. Entro numa brasserie ou loja, ou onde for, e sou recebido com um meio-sorriso convidativo, daqueles que você recebe de gente que quer apenas seu dinheiro e não sua simpatia. Na hora em que abro a boca para pedir informação (e não comprar algo), eles literalmente viram as costas e me deixam falando sozinho.

Disse aos amigos da escola que, quando me deparar com essa situação, eu deveria contar para eles a história do casal de franceses que foi morto no Rio de Janeiro quando, por informação errada, foram parar numa favela. Eu deveria explicar que se eles não forem legais comigo, isso pode acontecer com eles quando forem visitar o Brasil. Utilizar a espiral do medo, que tanto ouvi no jornalismo, seria uma forma de convencer esse povo a ser mais prestativo.

Por outro lado, tem vezes que eles são bem prestativos...até demais. Me irrita quando um garçom francês percebe que não sou daqui e responde minhas perguntas em inglês, mesmo comigo me desenrolando ao falar francês. Cadê a arrogância e a repulsa à língua das ilhas da Rainha Elisabeth? Enfim, um pouco frustrante... ou simplesmente sinal de que eu estou indo aos lugares errados, onde turistas chovem à beça.

Enfim, mas isso foi só uma negativa introdução para uma coisa boa. O meu week-end foi de descobertas boas. Primeiro, um bar à vins com preços módicos e uma atmosfera muito muito legal, mas não lembro do nome. A segunda, outro bar à vins que não tem uma carta de vinhos, pois para escolher uma garrafa basta você ir até uma enorme estante dividida por regiões da França, em meio de caixas e caixas de vinho, e pegar sua garrafa. Legal, não é?? E os preços também não são ruins.

O melhor daqui é que o vinho nacional é bom. E também barato. Então comprar uma garrafa de vinho no supermercado por 6 euros não é sinal de dor de cabeça e vinho ruim. Muito pelo contrário. Geralmente a gente se surpreende, e até passa por cima da falta de educação deles. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Champignons tournés

Taí uma habilidade que ainda não tenho em cozinha: "tourner" champignons.

Sei confitar, gratinar, preparar peixes e carnes, sobremesas, fazer purês, massas e muito mais. Mas fazer isto que o sujeito faz abaixo:


...foi praticamente impossível de primeira. E segunda...e terceira...tá doido, viu!?

Ele faz parecer super simples, assim como fez o chef Bruno Stril, do Cordon Bleu. Mas até eu pegar o jeito de chegar nesse resultado, ainda vou gastar muito dinheiro com champignons de Paris!

Fiz 6 champignons hoje, mas não tive coragem de postar foto de nenhum deles, pois não há UM que esteja de longe parecido com esse do vídeo.

Courage!

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Prática

Havia pouco mais de dois anos e meio que eu não "tournava" qualquer vegetal. Nos meus anos de commis chef, no Harvey Nichols, em Dublin, o chef gostava de todo tipo de legume "tournée". Foram pouco mais de dois anos fazendo esse tipo de corte em batatas, abóboras pescoçudas (que geraram o meu pior corte entre todos na carreira), alcachofras de Jerusalém, cenouras, courgettes...enfim... a lista é grande.

E assim como uma língua, não ter o hábito de usar uma técnica de cozinha, seja ela qual for, te deixa enferrujado.

Hoje, tivemos que fazer Paupiettes de Veau, um bife a rolê com nome chique, e como guarnição tivemos que "tourner" cenouras.

Fiz as minhas. Até que não ficaram ruins, considerando o tempo em que deixei de empregar essa técnica. Mas ainda sim o chef Franck Poupard, que sabe que eu sou um dos poucos chefs com experiência na sala, pegou uma cenoura, "tournou" e colocou do lado de uma que eu tinha feito. Olhou pra minha cara e disse: Bonne chance!

Depois do prato feito, ele pediu para que eu, assim como os outros alunos da sala, praticassem mais essa técnica.

Não tive dúvidas: fui ao marché e comprei 3 batatas e 1 cenoura. E adivinha o que teve pro jantar hoje?





O pessoal da sala ainda foi mais longe e disse que vamos organizar uma festa na casa de alguém e ao invés de música e bebida, a festa será para tourner vegetais e, talvez, fazer um jantar com um monte de legumes bonitinhos! Eu ainda seguirei praticando! Ainda voltarei à velha forma! 

domingo, 18 de setembro de 2011

Crème + beurre

Castela, muitos séculos atrás. 

Os navegadores espanhóis viajam o novo mundo, colonizando povos, introduzindo uma nova religião e saqueando seus bens naturais, levando as riquezas dos povos pós-colombianos de volta à coroa. Em resumo, foi mais ou menos o que os portugueses fizeram com o Brasil, mas em uma proporção estupidamente maior, já que 90% da América Latina fala espanhol ou qualquer outro idioma que deriva deste, resultado da derrocada castelhana no novo continente. Essa história é conhecida por qualquer pessoa que frequentou a escola depois de 1822. 

Agora, uma história que poucos sabem é o fruto da pesquisa de um jovem visionário holandês, Mr. Van Sarijvaa. Por meio de estudos de documentos e sítios arqueológicos, o estudioso neerlandês descobriu que na sociedade castelhana quem não era nobre e alfabetizado era, em grande parte das vezes, subjugado a viver na condição de servo da coroa espanhola. E, ainda baseado em pesquisas, pode-se dizer que os membros da realeza tinham hábitos tanto quanto hedonísticos, pois eram amantes das artes, das mulheres (e mulheres, dos homens, ou mesmo outras mulheres....enfim...) e, claro, da boa mesa. Agora, pare um pouco para contemplar esse cenário: você é o rei da Espanha. Todos seus navegadores estão fora buscando riquezas para o reinado; Napoleão ainda não veio encher o saco na sua fronteira; seus servos não estão aprontando uma revolução; sua guarda armada não pretende lhe degolar e dar um golpe para tirar suas nádegas do trono. Resumindo: tá tudo de boa, campeão! O que fazer para preencher seus dias de rei, que andam tão chatos? 

Simples: traga mulheres, teatro, bobos da corte e muita, mas muita comida!!!! E foi nisso que a pesquisa de Van Sarijvaa se concentrou: como se alimentava a realeza nessa época. A ordem do rei era clara: ele queria provar todos (ou a maioria) dos sabores da Espanha e ordenava que seus servos extraíssem o que suas regiões ofereciam de melhor e apresentassem à coroa pratos que representassem suas origens. Assim foram concebidos pratos típicos como a paella valenciana , crema catalana e a tortilla espanhola, por exemplo.

Como eram obrigados a fazer esse tipo de apresentação à coroa, os servos, assim denominados, não estavam muito contentes com essa situação. Então, decidiram que cozinhariam os pratos menos quistos em suas regiões para a corte real e guardariam a real cozinha espanhola em segredo, que seria passado de geração para geração, mas jamais revelada à nobreza. Pois bem... o único problema é que esse legado nunca foi escrito em papel, afinal as classes inferiores à nobreza eram analfabetas. Então, a fantástica cozinha espanhola foi transmitida verbalmente apenas.

Mas vocês sabem como essas coisas nunca dão certo, né? Claro que no país Basco, algumas décadas depois, a história saiu do controle e foi cair na França, até então produtora exímia de vinhos e produtos derivados do leite. Rapidamente a notícia correu até os ouvidos de um rapaz esperto, letrado e amante da gastronomia. Seu nome? Auguste Escoffier. Com permissão do exército da era pós-napoleônica, Escoffier levou tropas até a Espanha e literalmente sequestrou centenas de camponeses de diversas regiões em busca de suas receitas e um lugar de destaque na história da França.

Os espanhóis foram forçados a passar todo seu conhecimento gastronômico a Escoffier, que anotou e organizou todo esse trabalho. Após conseguir o que queria, todos os camponeses foram executados a mando do ganancioso Auguste, que logo começou a testar receitas e métodos da rica culinária espanhola. E tão logo percebeu também um problema: se Escoffier começasse a chamar aquela gastronomia de francesa, logo os espanhóis ouviriam a respeito, informariam ao rei e o estado de guerra seria iminente, algo que a França não queria logo após o revés de Napoleão na Rússia.

A solução veio dos campos. Sem ter mais o que fazer com tanto leite produzido no país, já que já estavam catalogados centenas de tipos diferentes de queijos franceses, Escoffier resolveu apostar no uso de seus derivados e colocou, em todas as receitas que tinha arrancado dos espanhóis, creme e manteiga. E assim nasceu a aplaudida gastronomia francesa: do casamento dos sabores e técnicas espanhóis com os laticínios franceses. É o caso do Sole Meunière, por exemplo. Na Espanha, o Lenguado con limón era um dos pratos favoritos da primavera na região do Mediterrâneo. Hoje, é conhecido como uma das bases da culinária francesa. 

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Agora, diga uma coisa: não fossem as brechas nas informações históricas, a pobre adaptação do meu nome para um nome holandês e uma pesquisa que eu duvido que tenha fundamento, essa seria uma boa explicação para o fato da gastronomia francesa usar tanta manteiga e creme de leite em sua base, não é???

E por favor, mil perdões aos franceses e a Auguste Escoffier, afinal a história acima NÃO é verídica! Eles são, sim, gênios da gastronomia tradicional e contemporânea!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Consommé

Nada de post, só um registro. Mesmo com 4 anos de experiência em cozinhas decentes na Europa, sempre escutei de diversos chefs que fazer um consommé era uma tarefa complicada. Claro, fazer um consommé clarinho e gostoso não é pra qualquer um, mas o processo de clarificação de caldos é mais simples do que eu imaginava. Basicamente depende de você fazer uma boa "masse de clarification" e deixar que esse bolinho de um monte de coisas juntas faça todo o trabalho. Tudo o que você tem que fazer é ajudar o bolinho a fazer seu trabalho, regando-o com o líquido a ser filtrado.

O mesmo se aplica à pâte feuilletée. Não é difícil, como muitos dizem por aí, mas sim trabalhoso. O resultado depende diretamente do cuidado que você tem com a massa e o respeito aos tempos de resfriamento e rolagem da massa. Veja você mesmo este allumette feuilletée au fromage.



A desmistificação é algo que nos faz abrir os olhos e ver que, sim, os franceses são os melhores em técnica.

Merci, Ms. Auguste Escoffier!